19.7.11

DE TEMPO

 

Pena que o tempo,

Em sua fúria,

Em teu nome tenha alagadiças areias

Foram ventos, chuvas, ressacas,

E cada vez que olhavas para trás,

Teu nome em meus poemas,

Apagados estavam, há muito,

Não há nada que com ele possa

Talvez em seu anseio,

Não encontre caminho,

A treva se instala,

No tempo que descuida,

Toda esperança torna em bruma,

E nós, os restantes seres,

Nos vemos à caça da derrota,

Mas põe-se tarde;

Ele, o inexorável, nos deixa,

A plena vela,

Navegando em sua furiosa borrasca,

Não, o tempo não é amigo,

Ele é companheiro,

Amigo?

Jamais!

Tempo no tempo é algo que não há,

Ele mesmo já o perdeu,

Hoje, como d'antes,

Sai em busca de si mesmo,

Todos os dias,

Tal como nós, outrora.

 

Marcilio Ribeiro

8.7.11

Uma ideia legal e de iniciativa privada, o que é indicativo de possível sucesso.

Vingança

 

Desde tanto, desde sempre

Não me socorro na crença,

Nenhuma me restou,

Exceto o abandono dos esquecidos

Já não nos resta o que buscar,

Em quem crer,

Tudo nos foi tomado

Terá alguma esperança sobrevivido?

Depois de tantas desilusões

Não há que sorrir,

Pois também o sorriso houveram por tomar-nos

Eles, aqueles que lá estão,

Cientes na sua maldita empáfia

Ousarão enquanto permitirmos,

Tomarão tudo que dispusermos,

Nossa alma mesma nos será tomada,

Que restará de nós ao fim?

Malditos sejam em sua voracidade,

Sei que dia chegará,

E todos haverão de mortos,

Em suplica pedir por piedade,

Mas não a terão,

O que nos negaram,

Lhes será negado,

O que tomaram,

Perderão,

Daqueles que tripudiaram,

Serão eles o capacho,

Todos os pés pisarão em suas faces,

Todo o escárnio que votaram,

Eles o terão em bom tamanho,

Sempre, sempre e sempre.

Marcilio Ribeiro

A Morte que Ronda

A morte ronda em um bueiro perto de você.

A morte ronda em uma unidade de emergência perto de você.

A morte ronda nas estradas, becos e vielas.

A morte ronda, furtiva, todos os seus passos.

A morte se esgueira em tua casa, no seio de tua família, ela pode vir de um tiro, disparado algures.

A morte, hipotética companheira, tornou-se presença no dia a dia, companheira de sonhos, de ilusões, de esperanças.

A morte, antes ocasional, é hoje amiga daqueles que sofrem nos leitos sem auxilio qualquer; é a confidente das horas amargas, das dores indizíveis, de todos que, à míngua, esperam em vão pelo socorro que jamais virá.

Diziam que essa ronda era inglória, que trazia tristeza, mas que se vê, hoje traz alento nas noites invernais das dores atrozes.

Terrível, não? Mas essa conclusão de uma dolorosa finitude deve culpa ao estado que esfola aqueles que o sustentam, que não assiste aqueles que dele dependem, que ignora a súplica de todos quantos passaram a vida a contribuir para uma miséria inesperada ao fim de seus dias. Eis o que é, miséria, solidão, abandono.

Esqueçam aquela fábula da formiguinha, esqueçam todas as fábulas, pois a morte já ceifou sua memória, nada restou além de papel amarelecido. Esperam, por ventura, que este estado tal qual se apresenta honre suas obrigações? Façam-me o favor, façam-se esse favor!

Vivemos todos o sofrendo da tunga permanente, em que o estado se vale de todos os seus mecanismos e meios para usurpar direitos conquistados, direitos antes garantidos, direitos que sequer terão futuro, sejam direitos imaginários ou líquidos e certos. Não, não ele, não desse estado que com suas fáucies escancaradas cada vez mais se goza de engolir o cidadão, de torna-lo um nada, que faz troça de seus anseios, que torna vã qualquer esperança.

Ao fim eu creio, “ não verás país nenhum”, nenhum de nós verá, pois eles que lá estão não deixarão nada para trás, senão nossos sonhos despedaçados!

 

Marciilio Ribeiro