A morte ronda em um bueiro perto de você.
A morte ronda em uma unidade de emergência perto de você.
A morte ronda nas estradas, becos e vielas.
A morte ronda, furtiva, todos os seus passos.
A morte se esgueira em tua casa, no seio de tua família, ela pode vir de um tiro, disparado algures.
A morte, hipotética companheira, tornou-se presença no dia a dia, companheira de sonhos, de ilusões, de esperanças.
A morte, antes ocasional, é hoje amiga daqueles que sofrem nos leitos sem auxilio qualquer; é a confidente das horas amargas, das dores indizíveis, de todos que, à míngua, esperam em vão pelo socorro que jamais virá.
Diziam que essa ronda era inglória, que trazia tristeza, mas que se vê, hoje traz alento nas noites invernais das dores atrozes.
Terrível, não? Mas essa conclusão de uma dolorosa finitude deve culpa ao estado que esfola aqueles que o sustentam, que não assiste aqueles que dele dependem, que ignora a súplica de todos quantos passaram a vida a contribuir para uma miséria inesperada ao fim de seus dias. Eis o que é, miséria, solidão, abandono.
Esqueçam aquela fábula da formiguinha, esqueçam todas as fábulas, pois a morte já ceifou sua memória, nada restou além de papel amarelecido. Esperam, por ventura, que este estado tal qual se apresenta honre suas obrigações? Façam-me o favor, façam-se esse favor!
Vivemos todos o sofrendo da tunga permanente, em que o estado se vale de todos os seus mecanismos e meios para usurpar direitos conquistados, direitos antes garantidos, direitos que sequer terão futuro, sejam direitos imaginários ou líquidos e certos. Não, não ele, não desse estado que com suas fáucies escancaradas cada vez mais se goza de engolir o cidadão, de torna-lo um nada, que faz troça de seus anseios, que torna vã qualquer esperança.
Ao fim eu creio, “ não verás país nenhum”, nenhum de nós verá, pois eles que lá estão não deixarão nada para trás, senão nossos sonhos despedaçados!
Marciilio Ribeiro