30.10.07

PROSA DE UM ESCRITOR OU O ADEUS À PENA

Amava a prosa,
A prosa que vivíamos,
Aquela prosa que irrompia por esse imenso e silente universo.
Amava todas as suas formas,
As tertúlias infindáveis,
Muitas até, sem nexo nem causa.
Pois, amava,
Dizia-o um dia, muito bem.
Mas ainda há o que amar?
E aquele imenso e silente universo que agitávamos,
Nos ouve, ainda?
Não, nós calamos a voz
E tudo tornou à inércia.
Estaremos morrendo,
Nós, nossa voz,
A própria vida?
Disse-me o universo em conversa à minha alma;
Estamos sufocando a prosa,
Estampidos e dor demais,
A música se cala em agonia e, com ela,
O próprio ser.
E depois? – perguntou-me o universo
Depois dos sons,
Calarão todas as penas,
Queimarão todas sagas em seus livros,
Olvidarão a história e todo o passado e
Com ele a esperança no amanhã?
Toda a história?
Mas sou ousado,
Eu escrevo,
Me recuso a magoar minha pena,
Devo regá-la e manchar com sua negra tinta,
O papel, cobrindo-o de símbolos;
Símbolos de esperança!
Mas para quem escrever?
Quem ousará atentar às palavras que minha pena chora?
Tentarão em vão,
Destruir as penas e seus prosélitos,
Mas não conseguirão!
Dizem que não precisamos mais de poetas,
Nem de contadores de histórias.
Matam a palavra mas, ela, teimosa,
Continua em seu curso,
Preenchendo de tipos todos os pápeis,
Contando de nós, para nós mesmos.
E mesmo que o universo teime, em pesar,
Chorar por nossa derrota,
Eu não permitirei!
Minha pena, se necessário,
Bradará em tons e em letras cada vez mais fortes,
Usarei de minha alma,
Esgotarei todos os tinteiros,
Gastarei todos os papéis e,
Quando nada mais houver,
Lançarei mão de outros meios;
Carvão, seiva,
Utilizarei de minha lâmina e entalharei na madeira,
Pois nada haverá de me deter.
Sou livre e por isto me expresso,
Por mim, por todos, pelo universo!
Que inexistam leitores,
Eu os criarei todos,
Novamente e novamente e novamente.
Palavras não são ouvidas,
Palavras não são lidas.
Mas haverão de ser!
Palavras não são compreendidas,
Mas não me desespero,
As traduzirei todas, uma a uma,
Incansavelmente.
O escritor não é,
Mas será!
As palavras não são,
Mas tornar-se-ão todas!
Grunhidos serão cânticos,
Gemidos serão preces,
Desespero será superação.

A prosa renasce, a prosa eterniza e
Da prosa veremos florescer todos os sonhos,
Um dia tornados em realidade!


Mark B. Röttenberg - 2007

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